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 O sistema proporcional estruturado por lista aberta, o caso do Brasil

por arthur augusto rotta

 

 

 

 

Os sistemas proporcionais ao redor do mundo costumam adotar diversas formas quanto ao seu procedimento de votação. Em geral se dividem em dois grupos, em lista fechada ou lista aberta. A maioria dos países que adota o sistema eleitoral proporcional adota o sistema de listas fechadas, bloqueadas ou pré-ordenadas. O Brasil, assim como a Finlândia e o Chile, adota o sistema de listas abertas – que em passado recente já foi adotado pelo Itália. O presente trabalho pretende apresentar o modelo brasileiro, ou seja, apresentar como se estrutura seu funcionamento, assim como suas principais críticas. Nesse sentido, serão explorados os efeitos do sistema sobre as campanhas eleitorais e os candidatos, assim como o efeito sobre os partidos e o comportamento parlamentar. Espera-se finalmente, por meio da análise do sistema brasileiro iluminar os debates sobre eventuais reformas eleitorais.

 

1 – Caracterização

 

Como dito acima, Brasil utiliza o chamado voto em lista aberta, também identificado como: voto pessoal único em candidatura individual, voto em lista não ordenada ou, ainda, como uma modalidade de voto preferencial, aquele em que o eleitor pode votar em candidato específico da lista apresentada.

A forma utilizada atualmente no Brasil só ganhou forma em 1950, por meio do Código Eleitoral (NICOLAU, 1991, p.106-107).

Nesse modelo, o partido ou coligação define a lista de candidatos a deputado ou vereador, mas não há qualquer ordenamento ou hierarquização prévia entre eles. O eleitor tem somente um voto para cada cargo e deve indicar um único candidato, embora o sistema também permita escolher apenas a legenda.[1] Os votos preferenciais determinam a ordem dos candidatos na lista, pois ela depende da quantidade que cada um receber nominalmente.

Assim, o total de votos obtidos por uma lista (aqueles somados pelos candidatos mais os atribuídos apenas à legenda), submetido à fórmula eleitoral (quociente eleitoral e distribuição de sobras), indica a quantidade de cadeira que ela conquistou. A distribuição desse contingente em cada lista é realizada segundo a ordem de colocação dos candidatos (BRASIL, Código Eleitoral 1965, art. 109, §2º). Quem estiver além do limite de vagas obtidas, fica como suplente, também segundo a ordem de classificação (Idem, art. 112). 

A lista aberta adotada no Brasil tem merecido uma série de análises e críticas. O primeiro elemento a ser destacado é que, por conta da quantidade de vagas obtidas e pela distribuição dos votos entre os candidatos das listas, há níveis diferentes de competitividade em cada uma delas, bem como podem ser muito díspares o total de votos pessoais que os candidatos de duas listas necessitem para ficar com a vaga. Em outros termos: são necessários menos votos para se eleger em uma do que em outra e é comum que o candidato X da lista A não consiga a cadeira, embora tenha obtido muito mais votos do que o candidato Y da B, que a conquistou.

O segundo é que todos os membros da lista colaboram para a conquista da vaga, mas são os votos pessoais que fazem com que o candidato se classifique em melhor posição na lista e obtenha a cadeira. Portanto, as vagas são ocupadas por um princípio majoritário – quem fizer mais votos ganha –, o que é bastante contraditório em relação à lógica da representação proporcional.

O terceiro é que, como muito raramente um candidato consegue sozinho atingir o quociente eleitoral, o mais comum é que, na prática, os votos dos menos preferidos ajudem os mais preferidos a ficar com a cadeira. Isso faz com que haja o fenômeno da transferência de votos intralista (vote-pooling), ou seja, a escolha do eleitor por um candidato contribui para a eleição de outro.

Desposato (2007) não critica o fenômeno do vote-pooling, pois o reconhece como inevitável em países que adotam a representação proporcional de lista aberta. O problema para ele é saber se os partidos são fortes e consistentes, de modo a que a transferência não afete drasticamente a escolha política realizada pelo eleitor, e não se transforme, assim, em uma transferência indevida. O autor aponta duas dimensões da vontade do eleitor passíveis de serem “traídas” pelo vote-pooling: a orientação programática/ideológica e a vinculação geográfica, no caso de um eleitor interessado em benefícios delimitados. Tavares (1999), por outro lado, agrega que este tipo de procedimento faz com partidos e eleitores não tem qualquer controle sobre o destino do voto dentro da lista partidária.

 

2 – Efeitos esperados sobre os candidatos e as campanhas

 

Em outro campo de crítica, uma famosa classificação dos efeitos dos sistemas eleitorais sobre as estratégias dos candidatos, realizada por Carey e Shugart (1995)[2], afirma que a lista aberta, combinada com magnitude elevada nos distritos e candidatura nata[3], faz com que o Brasil figure como um dos países que mais gera incentivos para a reputação pessoal em detrimento da reputação partidária. Ela costuma ser apontada como responsável pela alta personalização da campanha, afinal, como o voto nominal aumenta a probabilidade de eleição, o candidato precisa se fazer conhecer pelo eleitor ou reforçar esses laços. Com vistas a se distinguir dos demais concorrentes, ele tende a valorizar atributos pessoais e vínculos outros que não o programa partidário.

 

No Brasil, as evidências de personalização das campanhas são fortes. Cada candidato organiza sua campanha (participação em eventos, confecção de material, arrecadação de fundos e prestação de contas dos gastos) de maneira praticamente independente dos diretórios partidários. Como o desempenho do partido deriva em larga escala do sucesso dos candidatos em obter votos, quando da organização das listas de candidatos, os partidos têm forte interesse de incluir indivíduos populares em seus ramos de atividade, mas não necessariamente com histórias de envolvimento em atividades partidárias (artistas, jogadores de futebol, radialistas, líderes religiosos etc.) (NICOLAU, 2002, p.223-224).

 

 

Exemplo deste personalismo pode ser traduzido pela recentes eleições de outsiders, como ex-jogadores de futebol, como é o caso do Romário, eleito deputado federal nas últimas eleições a Câmara dos Deputados.

Nicolau destaca que o processo de votação atualmente em vigor no Brasil reforça para o cidadão a ideia de uma disputa personalizada.

 

Nos três diferentes processos de votação empregados desde 1945 (a cédula impressa pelos partidos, a cédula oficial e a urna eletrônica), votar nas eleições para Câmara dos Deputados foi sempre escrever (ou digitar, após a introdução da urna eletrônica) o nome ou o número de um candidato sem qualquer menção aos outros componentes da lista. Tal fato, associado à escolha de outros cargos pelo sistema majoritário na mesma eleição, acabou contribuindo para reforçar nos eleitores a falsa impressão de que as eleições para a Câmara dos Deputados são feitas segundo uma regra majoritária em que todos os candidatos concorrem entre si (NICOLAU, 2006, p.692).

 

Pesquisas de opinião parecem confirmar esta tendência, pois indicam a importância que os eleitores dão à reputação pessoal na hora de decidir o voto, em detrimento do partido. Os dados relativos à baixa quantidade de voto na legenda também são evidências da personalização do voto. Contudo, Nicolau (Idem, p.703) pondera não ser possível interpretar o voto em candidatos como expressão pura e simples do voto personalizado porque muitos eleitores com vínculos mais permanentes com os partidos preferem, muitas vezes, votar em um nome específico da lista”.

Samuels (1997) chama a atenção para o fato de a alternativa partidária ser variável importante que pode atenuar ou mesmo anular este efeito personalista dos sistemas centrados no candidato (caso da lista aberta). Ele argumenta que isto pode ocorrer seja em razão altos custos que implica a campanha (de forma que um candidato sem recursos prefira apostar na imagem partidária), seja pelo modo como alguns partidos organizam o acesso à lista, investem na reputação coletiva, na imagem da legenda, na disciplina e na coesão internas. Ou seja, mesmo na lista aberta, servir-se de estratégias coletivas e da força do partido é uma alternativa não só possível como empiricamente verificável.[4] Nessa perspectiva, lembra-se que até mesmo campanhas personalistas podem refletir estratégias partidárias, como é o caso do PCdoB[5], que procura concorrer coligado, lançar poucos ou apenas um candidato, e centrar a campanha nesse(s) nome(s), com vistas a obter representação.

Para os críticos da lista aberta, um reflexo da campanha personalizada seria o acirramento da competição interna. Mainwaring (1991, p.43) afirma que há frequentemente solidariedade entre pessoas do mesmo partido que concorrem a cargos diferentes; mas, entre correligionários que concorrem ao mesmo cargo, prevalece uma acirrada competição que é frequentemente mais intensa do que a competição interpartidária. Desposato (2007, p.128) chega a afirmar que a melhor estratégia para um candidato é atacar outro do seu próprio partido. Fleischer (1994 apud MACHADO, 2005, p.48) diz que a maior competição em uma eleição se dá entre “companheiros” da mesma chapa, pois cada um luta para se eleger e jogar seus colegas na suplência. As maiores traições e deslealdades são perpetradas entre correligionários, completa o autor. Nicolau também argumenta que a competição entre os candidatos de uma mesma lista

 

tende a ser agravada pelo alto grau de incerteza que caracteriza uma eleição para deputado federal, com um número de candidatos de cada lista, em geral, muito superior ao potencial eleitoral do partido, e pela reduzida informação que os candidatos têm sobre o potencial eleitoral do partido e de seus colegas de lista (NICOLAU, 2006, p.700).[6]

 

 

De outra mão, Figueiredo e Limongi (2002) discordam dos fundamentos dessa ideia. Os autores afirmam que, em um sistema de lista aberta, a competição intrapartidária não suplanta a interpartidária, pois, como os votos na lista são transferidos, qualquer um dado a candidato da lista aumenta as chances de os demais se elegerem, enquanto votos atribuídos a outra lista têm efeito contrário. Eles sintetizam: “onde a legislação prevê a transferência de votos no interior da lista, como é o caso por definição de sistemas proporcionais com lista aberta, votos pessoais e partidários são complementares e dificilmente distinguíveis” (Idem, p.310). Talvez por isso, Nicolau (2006, p.700) reconheça que, apesar de ser lógico esperar um maior incentivo à disputa intrapartidária no sistema de lista aberta, não é fácil avaliar empiricamente essa situação.

Nesse diapasão, Klein (1997, p.67) considera que a lista aberta gera incentivos para conflitos intrapartidários, mas nega o caráter disseminado da prática imputado por determinados analistas. Ele argumenta que essa interpretação se baseia na ideia de que todos os candidatos são iguais, quando, na realidade, alguns são mais competitivos do que outros. Logo, o grande puxador de votos dificilmente seria visto como um adversário pelos outros candidatos da lista, pois quanto mais votos ele trouxer, mais chances os demais têm de se eleger. 

No mesmo caminho da crítica à ideia de uma disputa disseminada entre candidatos da mesma lista, os contra-argumentos se centram na perspectiva de que as direções intervêm no processo eleitoral e tendem a evitar esses conflitos. Nicolau, que assume o caráter personalizado das campanhas, apresenta a hipótese de os partidos controlarem a composição da lista, pois 

 

tanto a dimensão territorial como a diversidade social dos candidatos são fatores fundamentais para os organizadores da lista. Os responsáveis pela organização da lista procurariam levar em conta critérios geográficos, atraindo nomes de diversas regiões do estado e evitando superposições de candidatos da mesma área, e tenderiam a privilegiar nomes com prestígio junto a setores específicos do eleitorado (Idem, p.695).

 

 

Se o autor está correto, trata-se de uma estratégia coletiva que organiza as campanhas individuais, com o objetivo principal de promover o interesse do partido e buscar a máxima eficiência possível.[7] Nessa linha, Figueiredo e Limongi (2002, p.308) agregam como recursos de controle das direções partidárias: a distribuição do tempo no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) entre os candidatos[8] e a necessidade que os políticos sentiram de manter a candidatura nata. Guarnieri (2004) e Braga, Veiga e Miríade (2009) mostram a influência da organização partidária na seleção e na definição do número de candidatos, pois, ao contrário do que argumentam Mainwaring (1999) e vários outros autores, as legendas deliberadamente não preenchem a totalidade de candidaturas que a lei faculta.

Outro campo de crítica à lista aberta considera que ela estimula a ampliação dos gastos de campanha e a corrupção com vistas a garantir o financiamento das despesas eleitorais. Mainwaring (1991, p.44) argumenta que, embora a corrupção não seja exclusiva do Brasil, ela seria particularmente aguda no país, tendo em vista o fato de a sorte do candidato depender dos sufrágios que conquistar, o que o estimula a gastar cada vez mais em campanhas individualista para captar tais votos.

Klein (1997, p.67-70) admite que provavelmente a lista aberta produz campanhas mais caras, porém responde que a relação entre corrupção e sistema eleitoral é controversa, e que os candidatos não fazem campanha na totalidade do distritos, eles tendem a visar o voto de grupos ou territórios definidos, pois o apoio de uma pequena fatia do eleitorado pode ser suficiente para garantir a eleição.[9]

 

3 – Efeitos esperados sobre os partidos e o comportamento parlamentar

 

As críticas à lista aberta no que tange aos efeitos produzidos nos partidos não se restringem à arena eleitoral. Ames (2003, p.89) afirma que a representação proporcional de lista aberta entrava o desenvolvimento partidário. O mais ferrenho dentre todos os analistas, Mainwaring (1991) proclama que ela garante aos políticos autonomia vis-à-vis seus partidos em todos os campos de atuação e contribui para minar os esforços de construção de partidos mais efetivos. Em trabalho posterior, declara:

 

O sistema eleitoral ajuda a explicar o comportamento individualista dos políticos e contribui para a baixa institucionalização do sistema partidário. O baixo grau de lealdade nos partidos catch-all é incentivado pelo sistema eleitoral (Idem, 2001, p.302).

 

A lista aberta seria responsável, também, pelas dificuldades que os partidos enfrentam para controlar suas bancadas, identificável pela indisciplina do voto em plenário e pelo déficit de coesão, manifestado especialmente por meio a troca de legendas.[10] Isso porque tais parlamentares levam para a arena parlamentar a mesma lógica individualista e personalista a partir da qual se elegeram.

Uma das comprovações deste fato, segundo essa corrente interpretativa, é que os deputados têm uma ação paroquial e particularista: procuram garantir a continuidade da carreira política e bons resultados nas próximas eleições por meio de políticas distributivas, ou seja, a concentração do oferecimento de benefícios aos municípios que formam seus redutos eleitorais, notadamente por meio de emendas ao orçamento. Enfim, ações de custos difusos e benefícios geograficamente concentrados, a receita do fenômeno conhecido como pork barrel. Conforme o modelo explicativo formulado por Mayhew (1974), essas ações também envolvem casework, isto é, o atendimento a pedidos, a intermediação junto à burocracia estatal e o contato com os eleitores das bases (visitas periódicas, divulgação na imprensa local, envio de cartas e felicitações) etc.[11]

Ames (2003, p.21), por exemplo, decreta que muitos deputados, talvez a maioria, passam boa parte do tempo cavando nomeações e projetos de interesse específico dos seus redutos eleitorais. Pesquisa realizada por Carvalho (2003) com os deputados da legislatura 1999-2003 verificou que a grande maioria reputa a si o mandato e projeta danos eleitorais mínimos se trocar de legenda, assim como diagnosticou a elevada importância que dão, em sua atividade, ao contato com o município e à defesa dos interesses da localidade, ainda que isso implique contrariar a determinação do partido. “Os nossos parlamentares revelaram, de forma inequívoca, que se vêem menos acionados por sua atuação legislativa do que por sua capacidade de equacionar as demandas individualizadas de suas bases” (Idem, p.152).

Os resultados da Pesquisa Legislativa Brasileira, série de surveys aplicada aos parlamentares ao longo de mais de 20 anos, reafirma que os deputados percebem a eleição como fruto de seus esforços pessoais: o índice de resposta ficou acima de 80% nas quatro rodadas (1997, 2001, 2005 e 2009) citadas por Lemos e Ricci (2011). Os dados também evidenciam que os parlamentares entendem que recebem demandas clientelistas dos eleitores (61% a 81%) e que, quando há conflito de interesses, votam de acordo com as necessidades da região e não com a indicação do partido (63,5% a 70,6%).

Ao resenhar as críticas dirigidas ao sistema de lista aberta – não exclusivamente ao formato adotado no Brasil – Marenco dos Santos (2006a, p.726) anota que

 

Tem sido muito atraente, para a literatura, fixar uma conexão entre: (a) regras eleitorais baseadas em voto preferencial; (b) incentivos para a promoção de reputações personalizadas como estratégia dominante; e (c) um padrão de conexão eleitoral baseado no reforço de lealdades paroquiais e no uso do pork barrel de forma a reduzir a incerteza gerada por elevados custos de informação ao eleitor, provocados pelo incremento no número de candidatos individuais e pela competição intrapartidária.

 

Nicolau (2006) reconhece que a prática de pork barrel existe para determinado tipo de parlamentar, aquele que não faz parte da elite parlamentar e/ou foi eleito com votações hiperconcentradas em determinados territórios, mas não acredita na generalização do fenômeno. Ele pondera, por exemplo, que não existe

 

relação necessária entre a lista aberta e o desenvolvimento de atividade parlamentar exclusivamente associada a atender demandas dos eleitores. Um deputado pode, por exemplo, investir esforços na vida legislativa (trabalho em comissões, liderança parlamentar, apresentação de projetos) e no reforço da reputação partidária (liderança da bancada, atividade de direção partidária) (NICOLAU, 2006, p.706).

 

 

A interpretação de Ricci segue esta linha interpretativa. Ele afirma que, quanto maior a magnitude e o número de eleitores, maior o custo de uma ação legislativa voltada para o mero atendimento das demandas locais.

 

Isto significa dizer que os deputados brasileiros não buscam um contato com os ‘seus’ eleitores por meio de políticas distributivas? Acredito que a resposta deva ser negativa, isto é, o político sempre tentará distribuir benefícios aos seus eleitores, mas, para os deputados, levando em conta os altos custos de agir por meio de políticas meramente paroquiais, é muito mais apropriado pensar em uma estratégia legislativa baseada na distribuição de benefícios difusos. Ao sinalizar para os ‘seus’ eleitores através da legislação ordinária, tratando-se de eleição proporcional e levando-se em conta os custos de investimento, é de se esperar que, à medida que aumentem a magnitude do distrito e a população nele residente, prevaleça uma prática distributiva que beneficie grupos amplos e espalhados sobre o território nacional, com vistas a capturar o maior número possível de eleitores (RICCI, 2003, p.704).

 

 

Para Figueiredo e Limongi (2002), aquela interpretação é a transposição para o país do modelo explicativo norte-americano – distributivista, calcado no voto pessoal ou na conexão eleitoral –, mas sem a percepção das significativas diferenças entre os dois sistemas político-eleitorais, como o fato de um ser majoritário e o outro, proporcional.

Um exemplo dessa tendência é o modo como Ames (2003) interpreta a tipologia dos padrões de voto dos parlamentares por ele formulada. Esta é calcada em dois critérios: a dimensão da concentração ou não dos votos em alguns municípios contíguos; e a dimensão de ser ou não dominante na votação dos municípios, ou seja, a participação percentual no total de votos nominais daquela localidade. Surgem os padrões eleitorais: concentrado-dominante, concentrado-compartilhado, disperso-dominante e disperso-compartilhado, sendo que a cada um deles corresponde uma determina forma de agir no parlamento. Os dados levantados pelo autor, relativos às eleições de 1990, mostram que os parlamentares se distribuem de maneira uniforme pelos quatro padrões espaciais de votação, o que, segundo Figueiredo e Limongi (2002, p.311) sugere que a legislação eleitoral brasileira permite que políticos lancem mão de estratégias variadas para se eleger e reeleger, recorrendo à construção de vínculos diversificados com o eleitorado”. Apesar disso, ele preferiu enfatizar apenas um tipo, o concentrado-dominante, relativo ao político adepto do pork barrel.

Além disso, os autores ponderam que para que um político se eleja manipulando políticas públicas, direcionando-as para atender aos interesses de seus eleitores, sua capacidade de influenciá-las é crucial para que o argumento se sustente. Logo, a arena decisória não pode ser desconsiderada” (Idem, p.308). Nesse ponto, eles se referem à influente interpretação que formularam a respeito do funcionamento do Congresso Nacional e do próprio sistema político brasileiro, segundo a qual há preponderância legislativa do Executivo, construída a partir de amplos poderes constitucionais que ele possui e reforçada pelo padrão centralizado nos partidos do trabalho legislativo. Logo, o presidente monta uma coalizão em bases partidárias, garante participação no governo para os parceiros, e estes fornecem votos para aprovar a agenda, visto que são fortes o suficiente para garantir a disciplina partidária (Ibidem, 1999, 2006). Nessa perspectiva, os parlamentares devem agir por meio de partidos, e não se sustenta a ideia de que eles formam um conjunto de atores individualistas a agirem sem coordenação e a imporem custos ao governo.

 

Parlamentares não podem agir como franco-atiradores. [...] os parlamentares têm muito a ganhar quando são capazes de coordenar sua ação, isto é, quando resolvem o problema de ação coletiva que enfrentam. Reunir-se em torno de partidos é uma solução para esse problema. [Mesmo que sejam movidos exclusivamente pelo interesse em obter patronagem] [...] a estratégia racional a ser seguida pode levá-los a fortalecer os partidos a que se filiam (Ibid., 2002, p.333).

 

 

Na mesma perspectiva, Fabiano Santos (1999) identifica problemas na premissa básica da idéia da conexão eleitoral, fruto de uma análise excessivamente simplificada do funcionamento do sistema eleitoral brasileiro. Ele não considera que paroquializar seja a melhor estratégia para os deputados e, ainda que fosse, há uma dificuldade fundamental, não observada por aquela interpretação: por conta das características do sistema eleitoral, os deputados são incapazes de identificar com clareza sua constituency eleitoral e, assim definir, com razoável grau de confiabilidade, qual clientela atender, e que tipo de interesses e demandas tem tal clientela. Para o autor, a constituency eleitoral dos deputados é fruto da expressiva transferência de votos no interior da lista, desse modo, a alternativa não é prestar atendimento a uma área geograficamente delimitada, e sim nacionalizar o mandato como forma de estabelecer um vínculo com seus eleitores.

 

O fenômeno da transferência de votos que caracteriza o proporcionalismo brasileiro produz um problema de informação para os deputados a respeito das preferências dos eleitores que contribuíram para sua vitória eleitoral. O presidente torna-se, nessas condições, o intermediário entre o representante e sua base. Quanto mais liberdade o Executivo tem para governar, maior será o valor informacional do posicionamento dos representantes vis-à-vis a agenda governamental (SANTOS, 1999).

 

 

Carvalho (2003) concorda que poucos deputados alcançam o quociente eleitoral, mas considera a interpretação de Santos de um formalismo analítico, pois, ainda que um parlamentar não saiba qual é a sua constituency efetiva, sabe de onde vieram os seus votos e, portanto, qual é a sua base eleitoral e a quem deve dedicar a atividade. Por isso, o entendimento dele é um pouco mais nuançado: discorda da ideia de que a lógica distributivista predomine no parlamento, pois a arena eleitoral brasileira não fornece um único padrão de votação; mas discorda das interpretações que desprezam a arena eleitoral como capaz de nortear a ação legislativa e afirmam a predominância da arena parlamentar, isto é, os incentivos e constrangimentos oriundos do funcionamento centralizado do congresso.

Ao aplicar a taxonomia de Ames (2003) aos pleitos de 1994 e de 1998, ele confirma que há distintas configurações geográficas de votos entre os eleitos e supõe que essas devem fornecem estruturas também distintas de incentivos aos parlamentares, os quais irão, em decorrência, privilegiar objetivos diferenciados na arena legislativa. “A distribuição geográfica do voto exerce impacto independente sobre a esfera legislativa, mais especificamente, sobre as atitudes dos deputados no que se refere à natureza de seus mandatos, às prioridades de ação dentro do Congresso e, finalmente, sobre a relação que mantêm com as bases” (CARVALHO, 2003, p.175). Defende, então, que a lógica do paroquialismo é típica dos parlamentares eleitos com votação dominante (concentrada ou não) e que aqueles com distribuição de votos não-dominante se orientam pelo universalismo.

Na verdade, as interpretações não se chocam nem se opõe tanto quanto Carvalho faz crer, simplesmente porque, embora falem de questões correlatas, versam sobre aspectos distinguíveis. Assim, Figueiredo e Limongi discordam da assertiva de que, por cultivarem o voto pessoal, os parlamentares sejam indisciplinados na arena parlamentar, mas não dizem que inexistem interesses particularistas a moverem os deputados, e sim que tais interesses não geram o comportamento parlamentar individualista suposto pela teoria do voto pessoal. Seria o contrário: porque tem interesses a perseguir (sejam particularistas ou não) e por entenderem a lógica do presidencialismo de coalizão brasileiro e do próprio congresso é que os parlamentares valorizam os partidos e agem disciplinadamente, com vistas a ter acesso aos recursos públicos.

O próprio Carvalho, que critica a generalização decorrente da interpretação de Figueiredo e Limongi, reconhece essa possibilidade e acena para a racionalidade instrumental que move os deputados, o que não se choca com aquela leitura. Em um momento de seu trabalho, ele afirma:

 

seja pelo exíguo espaço de atuação facultado ao parlamentar individual em meio a procedimentos legislativos fortemente centralizados, seja pela necessidade da reprodução eleitoral com as demandas individualizadas acima apontadas, as atenções e prioridades de atuação dos parlamentares estão voltadas para fora das paredes do Congresso, privilegiando a conexão com os eleitores juntamente com o recurso à burocracia, em detrimento da atividade legislativa propriamente dita (CARVALHO, 2003, p.153).

 

 

A frase aponta para a convergência entre as duas interpretações e empalidece a crítica que ele faz a Figueiredo e Limongi: justamente porque sabe que a atividade legislativa propriamente dita está fora da sua esfera de ação – pois controlada pelo Executivo – ou porque ela realmente não lhe interessa, o parlamentar cumpre o protocolo (vota conforme a orientação do partido), obtém as vantagens desse comportamento disciplinado (especialmente se ele é da base de apoio ao governo)[12] e se dedica a utilizar os recursos do mandato para outras atividades.

Desse modo, caso ele seja um parlamentar preocupado em atender bases eleitorais municipalizada, vai procurar se utilizar do pork barrel e da prestação de serviços aos eleitores ou às instituições locais. Caso ele seja um parlamentar com outra constituency, vinculada a grupos ou a correntes da opinião, igualmente vai procurar atender essa base. Pode-se ir mais longe e dizer que, na realidade, não há porque imaginar constituencies e consequentemente ações parlamentares tão claramente segmentadas, o deputado pode ter uma base geograficamente delimitada e também atender a interesses setoriais (RICCI, 2006).

No entanto, quando estiverem em discussão assuntos que afetam as suas áreas de interesse específico, o parlamentar tende a investir no acompanhamento e na tentativa de influenciar o processo legislativo. Entenda-se interesse específico em sentido amplo: meramente pessoal, da sua base geográfica, de grupos econômicos ou correntes de opinião a que está vinculado de modo mais ou menos estreito etc.

Em relação especificamente aos parlamentares por eles identificados como paroquialistas, Leoni e Ricci (2011, p.229) afirmam que

 

o papel da coordenação partidária que garantiria aos parlamentares redução dos custos informacionais e vantagens procedimentais – os parlamentares não têm de adquirir determinadas informações ou fazer determinados cálculos em um sem-número de matérias e projetos que devem rotineiramente analisar, senão naqueles que de fato interessem ao seu mandato; como também garantem a eles mais tempo e energia para o desenvolvimento das atividades voltadas para as bases eleitorais – especialmente o casework – realização de contatos pessoais e ações próprias junto ao Poder Executivo e aos agentes nos estados e municípios para a definitiva implantação de suas emendas individuais (pork). Seguir o partido no Congresso pode ser uma situação win-win, da qual também se beneficia o parlamentar. 

 

 

A titulo de síntese dessa discussão, pode-se dizer que o voto em lista aberta e as demais características do sistema eleitoral não produzem um único padrão de votação, e que a divisão entre esses perfis é mais ou menos equitativa, logo a ideia de que predominam deputados paroquiais é empiricamente falsa. Por outro lado, também não se pode negar a existência de parlamentares com perfil de votação paroquial. Contudo, independentemente da constituency, a ação racional do deputado é ser disciplinado e agir partidariamente na arena parlamentar, logo a idéia de um congresso atomizado e fragmentado também é empiricamente falsa, ainda que existissem apenas os deputados com perfil localista. O comportamento disciplinado traz dividendo ao parlamentar, os quais podem ser utilizados para desenvolver o perfil de mandato que ele define como prioritário.

É importante frisar que esta leitura não implica dizer, como o fazem Pereira e Mueller (2003), que os parlamentares seguem os líderes partidários porque tal ação pode proporcionar acesso a benefícios controlados pelo Executivo, benefícios esses que têm um forte impacto nas estratégias de sobrevivência política dos parlamentares na esfera eleitoral” (Idem, 2003, p.741). Afinal, os autores tornam o pork barrel como elemento chave para a continuidade da carreira dos políticos, de modo muito semelhante aos estudiosos do modelo americano, aliás, como foi comentado anteriormente.

Os estudos de Figueiredo e Limongi (2002, 2005), Santos (1999), Ricci (2006), citados previamente, destacam as limitações ao pork barrel no modelo político brasileiro, especialmente quando confrontado com os EUA. O Congresso dá preferência a emendas coletivas, as emendas individuais são as menos executadas, os parlamentares precisam indicar a fonte da receita dos recursos que pretendem transferir às suas bases, razão pela qual as emendas estão vinculadas a políticas públicas formuladas pelo Executivo e, quando executadas, também ajudam a consagrar a agenda governamental, mesmo se propostas por políticos da oposição.

Os autores argumentam que, ainda que o parlamentar queira se dedicar prioritariamente ao atendimento a clientelas específicas, esta atividade não é a única do mandato, nem a preferida dos políticos. E, frente aos índices de votação e de sucesso dos parlamentares que concorrem à reeleição, ela parece não ter força para, isoladamente, definir o sucesso dele, principalmente porque não basta a prática de pork barrel, o eleitor tem de reconhecer o político como o autor, sentir-se contemplado e satisfeito pelo benefício distribuído, e motivado a recompensá-lo em razão disso.

Em reforço a esta perspectiva, em estudo sobre a relação entre emendas individuais ao orçamento e reeleição, Mesquita (2008, p.72) indica que cada parlamentar adota estratégias próprias para garantir o sucesso nas urnas, estratégias essas que variam conforme a trajetória política individual e as ambições de cada um. Logo, não há uma estratégia única para obter cadeiras legislativas. A autora registra, após uma série de testes empíricos, que a execução orçamentária, símbolo por excelência do pork barrel, não parece estar entre as estratégias mais importantes para garantir o sucesso eleitoral.[13]

Mesquita (2008, p.64) também destaca que boa parte dos determinantes da reeleição está fora do controle dos parlamentares e que o contexto político mais amplo é crucial para a continuidade da carreira política. Nesse sentido, apoiar o governo não significa apenas ter o acesso privilegiado a recursos, mas também – e ainda que o político não queira –, ser co-autor das políticas públicas por ele definidas, credor nas urnas do sucesso ou do fracasso que a gestão apresentar. Idêntico raciocínio pode ser feito para os políticos da oposição, que podem receber votos e dividendos eleitorais sem que tenham acesso a tantos recursos quanto os da situação, nem tenham sido responsáveis pela gestão pública, mas porque realizaram a crítica e souberam apresentar uma alternativa a um governo com avaliação ruim.

Igualmente, como os autores anteriormente citados destacaram, não é possível esquecer que o candidato faz parte de um partido ou uma coligação e, por mais que possa contar com os votos pessoais, dificilmente ultrapassa sozinho o quociente eleitoral, logo, para se eleger ou reeleger, ele depende da votação atribuída aos demais candidatos e à(s) legenda(s). Enfim, a sorte do candidato não depende só de si, está vinculada ao desempenho da lista como um todo.

Desse modo, novamente a título de síntese: a prática de pork barrel existe, mas não traz os retornos eleitorais supostos. A classe política é sabedora disso, razão porque não direciona o mandato apenas a este tipo de ação política.

 

Considerações Finais

 

A ideia deste artigo era apresentar como se utiliza o modelo de lista aberta no sistema eleitoral brasileiro. Evidentemente que uma análise mais apurada não pode desconsiderar os demais elementos do sistema eleitoral, tal como a magnitude eleitoral, coeficiente eleitoral, apparentement etc. A análise conjunta destes elementos é fundamental para o entendimento geral do sistema. Isso porque determinadas características podem aumentar ou diminuir a tendência de  efeitos  esperados ao se adotar certo sistema eleitoral..

O presente estudo, por outro lado careceu da análise mais ampla das principais características do sistema brasileiro. Por outro lado não era este o seu propósito, seja em virtude da limitação do espaço seja porque se optou por realizar um estudo mais profundo de uma dada característica do sistema eleitoral, a lista aberta, do que uma leitura mais superficial mas que desse conta de todo o sistema eleitoral.

Em suma, de qualquer forma, espera-se que o artigo possa de alguma forma ter contribuído para quem estude o tema. Finalmente, cabe a consideração de que parte das críticas que foram apontadas no presente estudo, estão sendo consideradas pelo governo brasileiro que pretende levar a cabo uma reforma política. De toda sorte, qualquer que seja a reforma, ela sempre contará com a desconfiança de ser perpetrada e conduzida por quem justamente se beneficiou do sistema que pretende reformar, isto é, os políticos eleitos. Neste caso, a discussão passa a ser sobre legitimidade da representação, o que seria tema para outro trabalho.

 

Bibliografia.

 

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TAVARES, José Giusti .O Problema do cociente partidário na teoria e na prática brasileiras do mandato representativo. Dados, Rio de Janeiro, v.42, n.1, 1999.


 

[1] Esses votos são somados para a lista e tornam mais provável que ela obtenha uma ou mais uma vaga. Assim, beneficiam ao conjunto dos candidatos, mas a não nenhum deles em particular na disputa interna pela obtenção da(s) cadeira(s) conquistada(s). Como diagnosticou Blondel, quem vota na legenda “age, então, como se aceitasse a priori a ordem dos candidatos que farão não os Comitês Diretores, mas os outros eleitores que terão votado, também eles, num nome” (BLONDEL apud PORTO, 1996, p.72). Nicolau (2006, p.692-693) indica que o voto de legenda foi institucionalizado paulatinamente no país. Entre 1945 e 1958, era computado ao partido aquele voto que não permitia identificar claramente o candidato preferido; mas, a partir de 1962, a cédula passou a trazer a opção de voto apenas no partido.

[2] Famosa, mas também muito criticada. Para ponderações sobre os limites e os equívocos dessa classificação, ver: Nicolau (2006), Marenco dos Santos (2006a) e Klein (1997).

[3] A medida garantia ao deputado, senador ou vereador a inscrição automática como candidato do partido a que estivesse filiado. Em 2002, o STF a considerou inconstitucional.

[4] Nesse estudo, o autor utiliza o Partido dos Trabalhadores como exemplo.

[5] Partido Comunista Brasileiro

[6] Em outra perspectiva analítica, a da antropologia, a disputa intrapartidária (chamada de entre facções) também é evidenciada. Ver: Heredia (2006).

[7] Samuels (1997) também sugere que esta é uma ação possível em sistemas centrados no candidato, como o brasileiro.

[8] Sobre esta questão, ver: Schmitt, Carneiro e Kuschnir (1999).

[9]  Sobre o financiamento de campanhas no Brasil, ver: Samuels (2003, 2006a) e Speck (2007). Para a comparação entre regras de financiamento e diversas variáveis do sistema político, inclusive o tipo de lista, ver: Marenco (2010).

[10] Sobre a migração partidária, ver: Melo (2004) e Marenco dos Santos (2006). Sobre a alegada indisciplina em plenário, ver comentários na sequência.

[11] No modelo explicativo formulado por Mayhew, caseworks e pork barrel compõem atividades de credit claiming. Há outras duas formas de ação parlamentar: advertising (visa a construir uma determinada imagem do deputado) e position taking (calcada no posicionamento sobre temas obtido por meio de proposições, envolvimento nos debates ou voto).

[12] Inácio (2011, p.169) expõe que “essas recompensas são moldadas pelas oportunidades de controle da agenda legislativa e influência sobre a produção legal, de controle de posições institucionais no Executivo e de acesso aos recursos públicos”

[13] A autora critica fortemente os procedimentos metodológicos e a validade das conclusões apresentadas por Pereira e Mueller (2003), assim como por Pereira e Rennó (2001, 2007), as quais sustentam a importância da execução de emendas em áreas geográficas determinadas para a reeleição dos parlamentares.

 

 

 

 

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Sommario

 

Società

Il ciclo degli indignati

La politica italiana dagli applausi ai fischi

di pino rotta


 

 

 

 

I Ventennii in Italia sono ormai hanno valenza storica e politica. Venti anni infatti è più o meno la durata di cicli politici che hanno caratterizzato il panorama della storia d’Italia dall’Unità ad oggi. I primi 40 anni della storia italiana si dividono grosso modo a metà tra la politica della Destra, alleata della Francia e rigorista nelle politiche di bilancio, cui seguì la seconda metà con il governo della Sinistra, che cambia le alleanze, fa fronte con l’Impero Austroungarico e con la Germania e si proietta nell’avventura colonialista, che portò all’Italia la sua prima colonia, in Cina a Tientsin,


Ma lo Stato siamo noi?...


Società

Stato sognante: Antipolitica o apoteosi della partecipazione?

SALVATORE ROMEO
 

 

 


Credere in un mondo nuovo, partecipato attivamente e regolato dalle leggi naturali della solidarietà e dell’altruismo sembra divenuto oramai una chimera riservata solamente a chi si intestardisce a voler continuare a vivere quasi in uno stato sognante. La realtà che circonda il suo mondo è dominata da leggi artificiali, create probabilmente ad arte da un Grande Fratello che alimenta la sua brama famelica dettando regole che estremizzano la competizione e l’egoismo,


Società

Cosa vuol dire riflettere su sé?

di GIANFRANCO CORDì

 

 

 

 Modernizzazione riflessiva di Ulrich Beck, Anthony Giddens e Scott Lash costituisce una attestazione di presenza relativa ad una caratteristica precipua del mondo attuale. I tre autori, infatti, puntano tutta la loro attenzione sull’instabilità. Se, partiamo da una domanda precisa («cosa succederà… quando la modernità comincerà a riflettere su se stessa?») otteniamo in risposta «un orientamento», una tendenza verso qualcosa che «consente delle delimitazioni».


Esteri

O sistema proporcional estruturado por lista aberta, o caso do Brasil

por arhur augusto rotta

 

 

 

Os sistemas proporcionais ao redor do mundo costuma adotar diversas formas quando ao seu procedimento de votação. Em geral se divide em dois grupos, em lista fechada ou lista aberta. A maioria dos países que adota o sistema eleitoral proporcional adota o sistema de listas fechadas, bloqueadas ou pré-ordenadas. O Brasil, assim como a Finlândia e o Chile adotam o sistema de listas abertas – que em passado recente já foi adotado pelo Itália. O presente trabalho pretende apresentar o modelo brasileiro, ou seja apresentar como se estrutura seu funcionamento como suas principais críticas. Nesse sentido, serão explorados os efeitos do sistema sobre a campanhas eleitorais e os candidatos, assim como efeito sobre os partidos e o comportamento parlamentar. Espera-se finalmente, por meio da análise do sistema brasileiro iluminar os debates sobre eventuais reformas eleitorais.


Esteri

Scambi culturali…

Turisti Russi all’estero e turismo sessuale

nei paesi dell’est

TANIA KOSTYUK

 

 

 

Il turista russo è ormai diventato uno stereotipo. Ogni estate le riviste europee diventano strapieni di articoli dedicati al comportamento poco educato degli oligarchi russi nei luoghi turistici nei paesi europei. Come accadde qualche anno fa con l’oggi noto rivale di Putin alle elezioni presidenziali 2012, il signor Prokhorov, che è diventato a Courchevel in Francia un brand per lo scandalo del giro di bellissime e giovanissime donne e anche finito davanti al tribunale francese. Ma se le persone ricche si possono permettere certi svaghi, ai loro fratelli europei meno ricchi difficilmente perdonano un comportamento simile.


SOCIETà

Banche – Un sistema da "NINJA"

di FRANCESCOANTONIO DE ANGELIS

 

 

 

 

 

 

L’esordio di questo sciagurato terzo millennio è segnato da un progressivo calo dei tassi di interessi che porta le banche a prestare soldi ad un tasso più basso, a pagare qualcosa per i depositi dei clienti e ad avere margini di intermediazione sempre più bassi. A tutto ciò si è aggiunto un aumento dell’offerta di mutui, includendo soggetti a garanzia zero senza reddito, senza lavoro fisso, senza beni patrimoniali, meglio noti come "ninja" acronimo che sta per "no income, no job, no asset".. Queste operazioni rappresentano i cosiddetti "subprime" , così chiamati perché hanno un maggior rischio di insolvenza rispetto ai "prime".L’inevitabile insolvenza divenuta sempre più diffusa costrinse le banche a ricercare nuovi mercati di approvvigionamento


cifrematica

Indignazione o sdegno?

L’inciampo della verità

di giancarlo calciolari

 

 

 


La formula usata e abusata di scandalo della verità funziona sulla base della menzogna oggi prodotta industrialmente. E proprio l’informazione data come corretta, con tutti i crismi della legalità, è quella più menzognera. Tra le menzogne più recenti? La tesi del debito delle nazioni, la mucca pazza, l’aids, la sars, la depressione, la guerra giusta, la repubblica… La verità? Senza trombe né tamburi: l’Italia è un’oligarchia, e così la Cina…


SOCIETà

La città e le macerie della democrazia

di KATIA COLICA

 

 

 

 

Da troppo tempo ci si sforza di dare una definizione di città che vada al di là del conteggio prettamente demografico o dello status legale.

L’architetto Vezio De Lucia ha parlato di città come luogo dove si manifestano una complessità di attività e di funzioni che dovrebbero coprire (…) le principali esigenze dell'uomo e soprattutto, dove esistano – mi esprimerei così – valori collettivi. Quindi, quando c'è insieme alla soddisfazione delle esigenze individuali anche il soddisfacimento di misure collettive, credo che allora si possa parlare di città

 


SOCIETà

L’infelicità dilaga: quando la crisi non è solo economica ma anche psicologica

di valentina arcidiaco (*)


 

Crisi,default, recessione,disoccupazione,spread, pil, spending review: è da mesi che la nostra mente viene martellata da notizie altalenanti sull’allarmante situazione Economica Europea che incidono palesemente sulle condizioni psicologiche della collettività e del singolo, il quale si ritrova sempre più solo ed ansioso, senza punti di riferimento e con la consapevolezza e la paura che difficilmente si riuscirà a superare in tempi brevi e positivamente questo lungo periodo di difficoltà.


 

SOCIETà

Lo scandalo: morte del prossimo e crisi delle emozioni complesse

di mARIA LAURA FALDUTO (*)


 

 

 


Collocare una trattazione sullo scandalo sradicandola dal contesto ricco di cambiamenti a cui oggi assistiamo appare impensabile, è forse proprio per effetto di questi continui mutamenti, in cui concetto di limite/confine sia fisico che mentale si dissolve, che anche la percezione dello scandalo muta e si trasforma: quello che scandalizzava un tempo, oggi può passare inosservato e viceversa. Dopo la Morte di Dio di cui parlava Nietzsche, assistiamo alla morte del prossimo che come descrive sapientemente lo psicoanalista Luigi Zoja, è motivo principale della solitudine cui versa l’uomo: "È un orfano senza precedenti nella storia.


società

McCarthy e la banalità dello scandalo

di kreszenzia gehrer

 

 

 

 


I
l termine "scandalo" nel corso del tempo ha subito, come molti altri termini, una parabola semantica: da "ostacolo", "inciampo" della sua origine greca rinvia oggi al turbamento della coscienza collettiva provocato da una vicenda, da un atteggiamento o da un discorso che offende i principi morali correnti. Ma quali sono oggi i principi morali correnti? E soprattutto come si declina oggi l’arte contemporanea in relazione allo "scandalo"? Il 20 maggio 2010 è stata presentata dalla Fondazione Nicola Trussardi,


CULTURA

La semplicità dell’essere in-filtrato

di TIZIANA FORTUNATO

 

 

 


 

Voi siete gli artefici della vostra condizione passata, presente e futura. La felicità o la sofferenza dipendono dalla vostra mente e dalla vostra interpretazione. (Budda Sakyamuni)

Quale parte di me lasciare fluire, quella animica che viaggia alla velocità della luce collegata e connessa alle reti energetiche delle vibrazioni uni-versali o quella materiale che muove ora le dita sulla tastiera? L’una è imprescindibile dall’altra.


CULTURA

La Scrittura e l’Ebraismo

di nadine shenkar

 

 

 

 


Per gli Ebrei tutto fu all’inizio ORALITÀ: La Bibbia, il Talmud, la Kabbala furono ORALI… 10000 libri oggi lo sono. Quindi il popolo del LIBRO fu anche il popolo dell’oralità.  L’arte ebraica da un’altra parte è sopratutto PAROLA, SCRITTURA.  Come nella dialettica del Talmud in cui tutto è domanda e paradossi... Moltitudini di domande, di voci, di saggi, d’interpretazioni. Scrittura, anche, come rottura dei vasi: senza quella rottura, l’essenza della parola non sarebbe sopportabile; la luce ci farebbe ciechi. Questa parola fu emergenza dal deserto. Deserto di Giudea dove i profeti hanno scoperto la parola, deserto del Negev in cui Abramo andava con l’idea dell’EIN SOF o infinito; deserto del Sinai dove Mosè andò ai confini della parola, AHAR HA MIDBAR, altrove dal deserto...


libertà di pensiero

II colori della vita

di mimmo codispoti

 

 

 

 


I pensieri gli si affollavano nella mente come i profughi d’Africa sulle coste di Lampedusa. Sulla scrivania, la statuetta di un’aquila gli ricordava di volare alto, di non smettere di muovere le ali. Sintonizzò la radio su musica italiana e prese, da un cassetto, dei palloncini. Vi soffiò dentro uno la sua malinconia. La gomma si dilatò, gonfiandosi, e una macchia gialla inondò di luce la stanza. Innanzi a quel "sole" sentì un’energia positiva riempirgli l’anima e una rinnovata voglia di continuare il cammino.


Recensione

 libro-inchiesta

Il caso Fallara Storia del "modello Reggio" e del suo tragico epilogo

di Giuseppe Baldessarro e Gianluca Ursini

di pino rotta

 


 

I tempi cambiano. Richiesta di rinvio a giudizio per l’ex sindaco di Reggio Calabria, oggi Presidente della Regione Calabria, Scopelliti e il Comune parte civile nel processo.

Intrighi, imbrogli, spioni, love story e uno "strano" suicidio. Gli ingredienti per un film noir ci sono tutti. Solo che quello raccontato nel libro inchiesta di Baldessarro e Ursini é il resoconto crudo di una normale storia del malgoverno di una cittá. Questa cittá si chiama Reggio Calabria ed é la magnifica riproduzione, in scala ridotta, del modello berlusconiano, non a caso si parla di "modello Reggio".


teatro

"Attento alla cioccolata, Callaghan!"

di eleonora rombolà

 

 

 


"Attento alla cioccolata, Callaghan!" alimenta sin dal titolo le aspettative del pubblico delle grandi occasioni che, nella cornice di un Cinema Moderno prestato al teatro, è stato proiettato dalla promettente compagnia La Ribalta in una brillante atmosfera giallo-noir che ha reso di nuovo Vibo luogo di vivace cultura. E quando il buio domina, in un metateatrale gioco di ruolo, occupa la scena Tommaso, raffinato e multiforme Emilio Stagliano che, con duttile alternarsi di toni, rende in modo egregio l’inettitudine dello scrittore in crisi d’ispirazione, vittima delle intercettazioni telefoniche di una madre onnipresente e delle incombenti richieste dell’editore Stamponi che pretende, secondo la spietata logica del mercato, la consegna del suo lavoro.
 


INTERVISTA

Stefano Benni e la musica

Elisa Cutullè

con Paola cairo

 

 

 

Partiamo con il tuo rapporto con i cantautori: c'è qualcosa di tuo che avrebbe dovuto musicare Fabrizio de André.

Purtroppo non è stato musicato perché Fabrizio, che era un pigro, ha pensato bene di morire per non essere obbligato a scrivere quello che avrebbe dovuto scrivere per me. L'ha fatto apposta. Eravamo molto amici, per molti anni abbiamo pensato di fare qualcosa insieme. Io non volevo disturbarlo sapendo che la sua pigrizia era leggendaria. Ci siamo scritti molte lettere per decidere cosa fare insieme. Nel momento in cui ci siamo decisi era tardi perché Fabrizio era già ammalato. Aver conosciuto Fabrizio è stata una cosa straordinaria, al di là del fatto che non siamo riusciti a lavorare insieme.


 


 


Contatore visite visite dal 1° gennaio 2000
La rivista Helios Magazine e' iscritta dal 7/03/1996 al nr. 3/96 Trib. di Reggio Calabria (I) 

heliosmag@hotmail.com